Por Sebastião Belizário
Em novo livro, a pesquisadora articula a pedagogia crítico superadora às práticas corporais de matrizes africanas, oferecendo caminhos práticos para cumprir a Lei 10.639/03 no chão da escola.
A Educação Física escolar no Brasil historicamente privilegiou uma visão eurocêntrica, pautada nos esportes de rendimento e em padrões de corpo herdados do Norte Global. Romper com essa hegemonia e pautar o chão da quadra como um território de valorização da identidade negra é a espinha dorsal de Educação Física e Matrizes Africanas: Por uma proposição crítico superadora e antirracista, novo livro da professora e pesquisadora Josiane Cristina Climaco, publicado pela editora Revista África e Africanidades.
A obra surge como um marco teórico e prático em um momento em que a educação brasileira ainda busca caminhos eficazes para a aplicação plena da Lei 10.639/03 (que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana). A partir de uma densa pesquisa, Climaco propõe uma verdadeira revolução curricular: integrar as danças, lutas, jogos e a própria cosmovisão de matrizes africanas ao cotidiano das aulas de Educação Física.
O Encontro da Crítica com a Ancestralidade
O grande diferencial do livro é a articulação teórica de duas frentes poderosas: a abordagem crítico superadora — metodologia consagrada na Educação Física brasileira que analisa a cultura corporal sob a ótica da transformação social e da superação das desigualdades — e a perspectiva antirracista de matriz africana.
Para a autora, não se trata apenas de inserir a capoeira ou o maculelê de forma esporádica ou folclórica no calendário escolar (como no Dia da Consciência Negra). A proposta é estrutural:
- Descolonização do Movimento: Compreender que o corpo que dança o jongo, que joga capoeira ou que vivencia o afoxé produz conhecimento, filosofia e ciência histórica tanto quanto o corpo que pratica o basquete ou o handebol.
- Superação do Racismo Religioso: Enfrentar as barreiras morais e religiosas que muitas vezes impedem a entrada de manifestações culturais negras no espaço público da escola.
- Construção de Identidade: Oferecer aos estudantes negros a oportunidade de enxergar suas corporalidades e as trajetórias de seus ancestrais representadas com dignidade, rigor técnico e afeto na cultura corporal de movimento.
Muito além da prática: uma pedagogia do afeto e da memória
Nas discussões e entrevistas que circundam o lançamento de sua obra, Josiane Climaco tem enfatizado que a corporalidade de matriz africana é um veículo de memória coletiva. Em um país que tentou apagar sistematicamente a história de seus povos escravizados, o movimento do corpo manteve vivas as filosofias de preservação da vida, de coletividade e de conexão com a natureza.
“O corpo negro na escola não deve ser visto apenas sob a ótica da dor ou da exclusão, mas sim como um monumento de resistência, criatividade e produção de saber.”
A pesquisadora aponta que a Educação Física antirracista é urgente também para os estudantes não negros, pois permite a todos a partilha de uma base cultural rica, plural e verdadeiramente democrática.

Subsídios para docentes
Longe de ficar apenas no campo da abstração teórica, Educação Física e Matrizes Africanas entrega aos docentes ferramentas metodológicas valiosas. Ao detalhar como planejar aulas, avaliar processos e mediar conflitos raciais a partir do movimento, a obra se consolida como um manual de sobrevivência pedagógica e um farol para professores que desejam transformar suas práticas cotidianas.
O livro de Josiane Cristina Climaco é um convite — e uma convocação — para que a escola brasileira finalmente aprenda a gingar, a cantar e a se movimentar no ritmo de suas próprias raízes.
A obra encontra-se à venda em diversas lojas online como a Amazon, Estante Virtual e Mercado Livre.

