Há livros que registram uma trajetória. Outros procuram compreender por que determinada trajetória merece não ser esquecida. Sangue e Medalhas – O Legado de Alfredo Gomes, de AC de Paula, pertence sobretudo à segunda categoria. A obra parte da história de um atleta para construir uma narrativa sobre memória, ancestralidade, identidade, disciplina e continuidade. O esporte é o ponto de partida; o legado é o verdadeiro destino.
Publicado em 2026, o livro está organizado em cinco partes e trinta capítulos, conduzindo o leitor da “origem do movimento” à “vitória sobre o esquecimento”. Entre corrida, treinamento, cansaço, medo, disciplina, território, memória e ancestralidade, a narrativa desloca gradualmente o foco do desempenho esportivo para aquilo que permanece depois da medalha. A própria estrutura da obra evidencia essa proposta, ao reunir temas como formação, identidade, permanência, memória, ancestralidade e legado.
O livro começa antes da medalha. No prefácio, Alfredo Gomes aparece associado à disciplina, à perseverança e à capacidade de construir um exemplo que ultrapassa o tempo. A narrativa não se limita às competições: interessa ao autor compreender o homem por trás do atleta e a maneira como sua experiência repercutiu entre seus descendentes.
É aí que está uma das principais forças literárias da obra. AC de Paula transforma o esporte em metáfora da existência. Correr significa avançar; cansar significa enfrentar limites; repetir significa aperfeiçoar; respirar significa permanecer; cruzar a linha de chegada não significa necessariamente terminar. A corrida passa a representar a própria passagem do tempo e a luta contra o esquecimento.
Essa construção dá unidade ao livro, mas também revela uma característica que merece avaliação crítica. A prosa de AC de Paula é deliberadamente reflexiva e poética, recorrendo com frequência a frases curtas, paralelismos e conceitos reiterados. O recurso produz ritmo e frases de impacto, além de reforçar a atmosfera meditativa da narrativa. Em alguns momentos, porém, a repetição de determinadas ideias — disciplina, persistência, corpo, sangue, permanência e legado — pode reduzir o avanço narrativo para o leitor que espera maior densidade factual em cada capítulo.

Por isso, Sangue e Medalhas, funciona melhor como narrativa memorialística e literária do que como biografia histórica de caráter acadêmico. Sua força está na interpretação da memória, na reconstrução afetiva e na transmissão de valores entre gerações. A própria ficha catalográfica situa a obra entre esporte, biografia, história da corrida de rua, artes marciais, legado familiar, memória, identidade e narrativa contemporânea brasileira.
Essa leitura é ampliada pela participação da professora Kátia Rubio, autora do prefácio. Professora titular da Escola de Educação Física e Esporte da USP, pesquisadora da memória olímpica brasileira e autora de O Atleta e o Mito do Herói, Rubio relaciona a trajetória de Alfredo Gomes à presença negra na história do esporte brasileiro e à necessidade de preservar memórias que permaneceram por muito tempo à margem. Sua participação estabelece uma ponte entre a memória familiar reconstruída por AC de Paula e uma perspectiva mais ampla da história esportiva brasileira.
Na orelha, o professor Neílton Ferreira Júnior acrescenta uma segunda perspectiva. Doutor em Estudos Socioculturais e Comportamentais da Educação Física e Esporte pela USP, o pesquisador concentra seus estudos na história e na sociologia da Educação Física e nas relações entre colonialismo, imperialismo e cultura corporal. Sua leitura ajuda a situar Alfredo Gomes não apenas como atleta, mas como personagem inserido em um contexto histórico e social específico.
A presença dos dois pesquisadores é significativa porque aproxima três dimensões do livro: a memória familiar do autor, a história olímpica e a leitura sociocultural do esporte. As apresentações associam Alfredo Gomes à presença negra na história esportiva e ressaltam que sua importância não se esgota nos resultados, mas também se projeta como referência para as gerações seguintes.
Outro mérito da obra está justamente na maneira como ela amplia a personagem central para alcançar seus descendentes. Walter, Helena, Giovanna e Maria Helena aparecem como continuadores de uma história, mas não como simples reproduções do passado. Cada geração encontra sua própria modalidade, seus próprios desafios e sua própria forma de transformar herança em experiência. Na apresentação, AC de Paula deixa explícito que a continuidade não significa repetir o caminho de Alfredo, mas compreender o que dele permanece.
É nesse ponto que o livro ultrapassa a biografia esportiva. A pergunta deixa de ser apenas “quem foi Alfredo Gomes?” e passa a ser “o que uma pessoa deixa depois que suas conquistas deixam de ocupar as manchetes?”. A resposta de AC de Paula está na memória, no exemplo e na escrita. No epílogo, a caneta aparece como instrumento de preservação, uma forma de impedir que o tempo transforme uma trajetória significativa em esquecimento.
Assim, o principal mérito de Sangue e Medalhas está em transformar uma história familiar em uma narrativa de interesse mais amplo. Sua principal limitação, sob a perspectiva de uma biografia acadêmica, está na opção por uma escrita reiterativa e fortemente reflexiva, que privilegia a construção simbólica, a memória e o legado em detrimento de uma investigação documental mais aprofundada. Para o leitor que procura, especificamente, uma biografia de caráter histórico e documental, essa característica pode representar uma lacuna.
Mas trata-se de uma aparente lacuna, preenchida pelas demais obras de AC de Paula que, reunidas, compõem a trilogia dedicada a Alfredo Gomes: Alfredo Gomes – Vida, Vitórias e Conquistas (2018), Brasil – 100 Anos de Negritude Olímpica: A Trajetória de Alfredo Gomes (2024) e Paulicéia em Disparada – O Pioneirismo de Alfredo Gomes na Corrida de São Silvestre (2025). Nesses títulos, o autor concentra-se de maneira mais específica na trajetória esportiva de Alfredo Gomes, ampliando a documentação e a contextualização de seus feitos. Dessa forma, Sangue e Medalhas não deve ser lido isoladamente como uma biografia definitiva do atleta, mas como uma obra que integra e aprofunda, em outra chave literária, um projeto autoral mais amplo de preservação e reconstrução da memória de Alfredo Gomes.
Essa perspectiva torna a leitura da obra mais completa. A trilogia permite perceber que há, de um lado, o esforço de reconstrução da trajetória esportiva e histórica do atleta e, de outro, neste volume, a tentativa de compreender o que ficou depois dessa trajetória: os valores, a memória, a ancestralidade e as marcas deixadas nas gerações seguintes.
No fim, a pergunta que permanece não é apenas quantas medalhas Alfredo Gomes conquistou. É outra, mais literária e talvez mais importante: o que uma pessoa deixa quando já não pode mais correr?
AC de Paula responde pela própria escrita: algumas pessoas deixam muito mais do que recordações. Deixam caminhos.

Sobre o autor
AC de Paula é escritor, poeta e compositor, com trajetória marcada pela literatura, pela música e pela valorização da cultura brasileira. Sua produção transita por poesia, canção, crônica, dramaturgia e reflexão social. Como compositor, possui músicas gravadas e interpretadas por nomes da MPB, entre eles Jair Rodrigues, Franco, Beto Scala e Zé Alexanddre, além de participação e premiação em festivais de MPB e concursos literários. Sua obra literária dialoga especialmente com memória, identidade, cultura popular e personagens da história brasileira.
SERVIÇO
Livro: Sangue e Medalhas – O Legado de Alfredo Gomes
Autor: AC de Paula
Edição: 1ª edição, São Paulo, 2026.
Disponível em: Baú do Poeta
E-mail: acdepaula09@gmail.com
Telefone/WhatsApp: (11) 99356-2710
Instagram: @ac_de_paula
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